Tim Burton é um homem estranho. Se um psiquiatra fosse analisá-lo por sua obra chegaria à conclusão óbvia de que ele tem algum tipo de transtorno ou problema com a realidade, uma profunda depressão ou uma melancolia severa, frutos, talvez, de algum tipo de trauma de infância ou de um distúrbio mental. Isso porque Burton adora criar mundos sombrios, tristes, deprimentes e quando emprega o colorido, é sempre um colorido doentil, hipnotizador, psicodélico. Seus personagens principais são sempre desajustados, pessoas que se sentem estranhos no mundo em que vivem e que sofrem preconceitos por serem diferentes.
Sendo assim, nada mais justo que Burton dirigir aquele que até hoje é considerado o maior exemplo de história non-sense da Literatura. Até que demorou muito para isso acontecer. Infelizmente, a expectativa do encontro entre Burton e Caroll foi tão grande e o casamento entre os dois parecia tão perfeito, que o resultado, mesmo que bom, acabou decepcionando.
Não que o filme seja ruim. Na verdade, ao contrário de outras críticas que li, não foi o roteiro que me incomodou. Eu até o achei interessante e muito bem sacado. O que me incomodou mais foi justamente aquelas que são as marcas registrada de Burton: o visual e o clima.
Mas, vamos ao roteiro. Burton teve a feliz idéia de não simplesmente contar novamente a história de Alice, a menina que persegue um coelho branco e vai parar num mundo estranho cheio de gente doida. Por mais que a história criada por Lewis Caroll seja interessante e que eu desejasse vê-la literalmente na tela grande, confesso que adorei a sacada da volta de Alice ao mundo que ela achava que fosse apenas um sonho.
Burton, por meio dessa idéia, escolheu mudar o estilo da história. Ela deixou de ser non-sense e passou a ter sentido. O diretor aprofundou a personalidade dos personagens, dando a eles outras facetas e novos sentimentos. Se antes eles eram apenas loucos, agora eles são loucos mas se importam com alguma coisa além deles mesmos.
Neste sentido, é importante perceber a dinâmica de personagens que no livro não se encontravam e que agora precisam trabalhar juntos para derrotar a tirana Rainha Vermelha, que dominou o País das Maravilhas, usurpando o trono de sua irmã Mirana, a Rainha Branca. Há uma espécie de resistência, de rebeldia, com direito até a frase secreta para que os rebeldes possam se reconhecer.
O Chapeleiro Maluco, de Depp, parece ser o líder dessa força rebelde e, com a ajuda do Gato de Cheshire, do Coelho Branco, da Lebre de Março, do Dodô, da Lagarta Azul, do Arganaz e dos gêmeos Twendle-dee e Twendle-doo, luta contra a perigosa e complexada Rainha Vermelha, de Bonham Carter, que na verdade é uma mistura da Rainha de Copas do primeiro livro com a Rainha Vermelha do segundo, "Alice através do espelho".
Para a Resistência, Alice é a escolhida, a única que pode empunhar a tal Espada Vorpal e derrotar o terrível Jaguadarte, a arma secreta da Rainha Vermelha. Claro que Alice não quer esta responsabilidade para ela, já que ela pensa que tudo aquilo é apenas um sonho, como da outra vez em que esteve ali.
Aos poucos, porém, como exige a história, Alice vai se dando conta de que tudo aquilo é real e de que ela precisa assumir seu papel de campeã, liderando os exércitos da Rainha Branca para a inevitável guerra contra a irmã desta, a Rainha Vermelha. Simples assim. É a velha história do escolhido que não aceita a missão que tem mas que aos poucos, com a ajuda dos amigos vai entendendo que não tem outra saída a não ser aceitar que ele é e cumprir o seu destino.
O problema, para mim, não foi a história, por mais manjada que ela seja. O problema, como já disse, é o visual. Ficou tudo muito escuro, muito sombrio. Eu sei que é um filme de Tim Burton, mas os cartazes e fotos liberados antes da estréia mostravam paisagens mais bonitas e iluminadas. Dá uma sensação de clautrofobia diante de tantos ambientes escuros. Até mesmo o Castelo de Mármore da Rainha Branca é envolto em escuridão. O sol nunca brilha no País das Maravilhas.
Outra coisa que incomoda é o visual de Johnny Depp. Aquela maquiagem branca deixou ele muito caricato, muito palhaço. Acho que poderiam ter deixado a cor da pele dele natural. Dava para ver os cílios dele pintados de rímel branco. Muito estranho. Além disso, sua atuação não foi tão boa quanto geralmente é. Não parecia que ele estava fazendo aquilo com amor. Mas, verdade seja dita, deve ser difícil se entregar totalmente quando se está atuando diante de uma tela verde.
Os efeitos especiais são bons, mas não ótimos. Os personagens digitais cumprem bem sua função, com excessão do Jaguadarte, que ficou muito escuro e mal detalhado. Destaque para Absolem, a Lagarta Azul e para o ótimo Gato de Cheshire, de longe os melhores personagens entre os digitais.
Mas quem roubou mesmo a cena foi a esposa do diretor, a sempre ótima Helena Bonham Carter. Entregando-se totalmente ao papel, como é de costume, Helena dá um show na pele da rainha que tem complexo devido ao tamanho de sua cabeça. Apenas com seus olhares, Helena consegue revelar a insegurança da Rainha, insegurança esta que é a causa de sua tirania.
Já a coitada da Mia Wasikowska, no papel da jovem Alice, não teve muito o que fazer, se limitando a usar a mesma expressão praticamente o filme todo. Prefiro a atuação da menininha que fez a Alice pequena nos flashbacks de sua primeira visita ao País das Maravilhas, que aliás foram uma grata surpresa quase no final.
Enfim, "Alice no País das Maravilhas" é um filme bom e divertido, mas poderia ser bem melhor se tivesse um pouco mais de luz e energia. Burton é capaz de muito mais.









































